“Não temos recursos. Na semana que vem, será o quinto dia útil, e não poderei pagar os funcionários, que dependem desse dinheiro e também sofreram perdas com a enchente. Não conseguimos trabalhar, não temos peças, não conseguimos alugar outro galpão. Está sendo muito difícil”, desabafa Miquilino. Ao todo, cerca de 50 pessoas dependem diretamente e indiretamente da fábrica.
Um trator enviado pela Prefeitura de Brás Pires auxiliava, nessa sexta-feira (27/2), na retirada da lama espessa acumulada no galpão. O proprietário calcula que precisará de ao menos mais duas semanas para concluir a limpeza do local — isso, se novos temporais não voltarem a atingir a cidade.
“Não estamos conseguindo pensar lá na frente. Só no hoje. Primeiro, resolver o problema da limpeza. Depois, veremos se será possível retomar o trabalho ou se teremos que fechar”, lamenta o empresário, que mantém fábricas na Zona da Mata há quase dez anos.
“Setor deve se recuperar em um mês”
Apesar do cenário de “terra arrasada”, Gilberto Coelho, presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias do Mobiliário de Ubá (Intersind), aponta que nem todas as empresas foram afetadas da mesma forma. “Como as fábricas estão espalhadas em diferentes locais da cidade, algumas perderam tudo e outras não sofreram praticamente nada”, analisa.
É o caso da sua própria empresa, a Sallêto Móveis, que ficou parada por um dia, por causa da falta de luz e de mão-de-obra, e já retornou às suas atividades. “É claro que deve haver um impacto principal por agora, mas o setor deve se recuperar em cerca de um mês. As empresas que não foram afetadas devem ajudar as outras”, diz o empresário, que ainda não consegue estimar qual será o prejuízo real na região.
Vale lembrar que, mesmo antes da destruição provocada pelas chuvas, a expectativa do setor em MG já não era das mais positivas. De acordo com o Sindicato das Indústrias do Mobiliário e de Artefatos de Madeira no Estado de Minas Gerais (Sindimov MG), a indústria deverá registrar um crescimento entre 5% a 10% nas vendas em 2025 em relação a 2024.
“O ano de 2026 será uma incógnita e nos deixa apreensivos. Além de todos os problemas vividos em 2025, será um ano de eleição e Copa do Mundo. O país viverá uma incerteza muito grande e com certeza a economia sofrerá uma queda. Esperamos que seja um ano em que as empresas consigam se manter talvez no mesmo patamar do ano passado”, afirmou o presidente Mauricio de Souza Lima.
Belo Horizonte já sente os efeitos
Conhecida por concentrar dezenas de lojas de móveis, a avenida Silviano Brandão, entre os bairros Floresta e Sagrada Família, na região Leste de Belo Horizonte, já tem sofrido as consequências financeiras do temporal que atingiu Ubá. Apesar da distância geográfica, muitos lojistas dependem dos produtos que chegam de lá.
É o caso do empresário Diego Augusto de Oliveira, 41, que comanda três unidades da marca Di Alice Móveis na famosa avenida. Ele tem cerca de 20 fornecedores do polo moveleiro de Ubá, o que representa 70% do abastecimento das suas lojas, e relata que uma entrega que chegaria nesta semana já está atrasada.
“Já tive quatro cancelamentos, me trazendo um prejuízo de R$ 18 mil. Até clientes que ainda não estão com pedidos atrasados já estão inseguros e pedindo para cancelar. Quase tive uma outra perda de R$ 20 mil, de um cliente que comprou dois sofás de couro e duas poltronas. Como o prazo ainda não acabou, consegui convencê-lo a esperar. Mas acho que ainda teremos muitos cancelamentos nos próximos dias”, diz.
Ele também conta que a maioria dos fornecedores já avisaram que vão atrasar suas entregas e que a previsão é que as fábricas só comecem a se reestruturar a partir da próxima semana. “Ainda leva um tempo até a matéria-prima chegar e a produção ser retomada. Acredito que os pedidos devem atrasar cerca de um mês”, calcula Oliveira.
Enquanto isso, o empresário faz o que pode para driblar a insatisfação dos fregueses. “Uma das estratégias é oferecer algum móvel similar, para que o cliente use enquanto sua encomenda não chega”, revela. Além dos prejuízos financeiros, ele aponta que a falta de empatia em um momento tão crítico também o pegou de surpresa. “Muitos clientes afirmam que não têm nada a ver com as chuvas e que a gente precisa se virar”, desabafa.
O polo de móveis da avenida Silviano Brandão é representado pelo Sindicato dos Lojistas do Comércio de Belo Horizonte e região (Sindilojas BH & Região).