Contar uma história talvez seja uma das atividades comunicativas mais antigas da humanidade. Afinal, a narrativa oral está na base de praticamente todas as civilizações. Já diria o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre: “o homem é sempre um contador de histórias, vive rodeado por suas histórias e pelas histórias dos outros, vê tudo o que lhe acontece através delas, e tenta viver sua vida como se a estivesse recontando.”
Mas há quem pense que essa prática é apenas um gesto simples, quase instintivo. Acontece que por trás de cada narrativa bem construída existe muita escuta e técnica. Tanto é que foi criado, em 1991, na Suécia, o Dia Internacional do Contador de Histórias, comemorado em 20 de março, na próxima sexta-feira.
Mas o que há por trás de um bom “contador de causos”? “Quando conto uma história, trabalho os personagens que existem dentro de mim para tentar acessar os que vivem dentro dos ouvintes”, dá a dica a diretora do Instituto AbraPalavra, Aline Cantia, que divide o comando da instituição com Chicó do Céu e Fernando Chagas.
Ela explica que um contador de histórias não interpreta os personagens como um ator, mas se debruça sobre a narrativa. “Quando conto uma história, não entrego tudo pronto, porque cada pessoa constrói a sua própria versão. Há um estímulo mais aberto, em que cada um vai criando sua própria linguagem e suas imagens internas. É o que chamamos de ‘artes conviviais’: à medida que vou contando, o público também me alimenta, e essa troca acontece o tempo todo, entre quem narra e quem escuta”, salienta.
Aline ingressou no ofício em 2006, em um trabalho experimental desenvolvido com o músico Chicó do Céu. Na época, ela era professora dele, e ambos desenvolveram um projeto de extensão em uma comunidade quilombola.
“Foi nesse trabalho que percebi que existia uma linguagem própria da narração de histórias. Comecei a entender essa linguagem, a descobrir esse campo, a trabalhar com músicas junto às histórias… Em 2010, comecei a consolidar uma linguagem, a viajar para muitos festivais e a perceber que isso era, de fato, um trabalho. Passei a me dedicar com mais afinco, tentando entender o mercado, como me sustentar e também questionar esse lugar, que sempre foi visto como uma linguagem menor. Nos editais públicos, por exemplo, o contador de histórias muitas vezes recebe menos do que outros artistas”, destaca.
E é justamente com esse caráter de defesa do ofício que Aline articulou um evento para celebrar e promover o Dia do Contador de Histórias. A partir desta quinta-feira (19/3), serão realizadas três rodas de conversa gratuitas, com a participação de mestres da cultura popular, pesquisadores, artistas e narradores para debater a força das tradições orais mineiras e seus diálogos com o presente.
A programação foi desenvolvida pela Escola de Narração Artística (ELENA) e idealizada pelo Instituto Abra Palavra. As ações acontecem no próprio instituto, no Museu das Minas e do Metal MM Gerdau e na Livraria do Belas Artes.
Uma das convidadas é a contadora de histórias Andressa Gonçalves, que mediará a roda de conversa “Oralidade Mineira como Patrimônio Cultural”, no próximo sábado (21/3), na Livraria Belas Artes. O encontro aborda conceitos e diretrizes sobre patrimônio imaterial na cultura mineira, estratégias de registro e salvaguarda das tradições orais em Minas Gerais e a memória coletiva presente nas narrativas dos sertões, montanhas e vilarejos.
Ao falar de si, Andressa define-se mais como uma “registradora de histórias”. Nos idos de 2006, ela viajou até a cidade de Luminárias, no interior de Minas, onde ela e o parceiro contaram a história da comunidade a partir dos relatos da própria comunidade.
“Entrevistamos 27 moradores com mais de 75 anos durante 40 dias. Esse movimento de registrar a oralidade mobilizou a própria comunidade, que passou a se sentir pertencente à sua história. Eu costumo dizer que não sou contadora de histórias, mas registradora de histórias. Nosso trabalho é organizar as narrativas da comunidade”, destaca.
Andressa explica que o trabalho de registrar histórias começa pela escuta ativa. “Queríamos, por exemplo, fazer um livro de memória dos mestres de reinado de Divinópolis. Foi um trabalho muito rico, mas as pessoas nos relataram a dificuldade de transmitir esse tipo de conhecimento para as gerações mais novas. Daí surgiu a ideia de criar um livro infantil, ‘O Reinado de Bené’, que conta a história do reinado de Divinópolis a partir de uma avó, com uma linguagem mais acessível para jovens e crianças. Entendemos que o registro dessas histórias faz com que as pessoas reflitam sobre a própria existência, sobre a caminhada e o impacto que têm na comunidade em que vivem”, entende.
Contação de história é só para crianças?
Há, no imaginário coletivo, a ideia de que a contação de histórias se destina apenas ao público infantil. No entanto, uma narrativa bem construída tem potência para envolver qualquer pessoa, independentemente da idade. Para isso, é preciso pensar em técnicas que abranjam diferentes públicos. “Se vou a uma escola, por exemplo, não posso contar uma história da mesma forma para uma criança de 3 anos e para um adolescente de 15. Existem técnicas para isso”, explica Aline.
Segundo ela, cada escolha interfere na experiência do público. “A imaginação é muito importante, mas, se trago elementos a mais, como objetos, o público passa a olhar para eles também. Então é preciso ter intenção. Se vou contar uma história sobre um país da África, por exemplo, e coloco um turbante, corro o risco de cair em estereótipos, já que esse elemento não é uma unanimidade entre todas as culturas africanas”, explica.
A contadora de histórias defende a mistura de linguagens como forma de ampliar a narrativa. “Sou a favor de pensar várias linguagens, de fazer ‘transcriações’. Uso referências da música e da poesia, por exemplo. Durante muito tempo, nos meus trabalhos, experimentei o teatro e a dança. É uma linguagem ancestral, então podemos explorar muitas coisas, desde que a história não se perca”, aponta.
SERVIÇO
O quê. Evento em celebração ao Dia do Contador de Histórias
Quando. De hoje (19) a sábado (21)
Onde. MM Gerdau, Instituto Abra Palavra e Belas Artes


