O grande concorrente de “O Agente Secreto” no Oscar é o norueguês “Valor Sentimental”, que arrebanhou – além de estar na categoria de Melhor Produção Estrangeira – nada menos do que nove indicações. Mas os brasileiros elegeram outro filme, o espanhol “Sirãt”, como inimigo número 1 depois da maneira desdenhosa como o diretor Oliver Laxe se referiu ao longa de Kleber Mendonça Filho. A munição deve aumentar agora, com a estreia de “Sirãt” nas telonas, nesta quinta-feira.
Laxe colocou as quatro nomeações de “O Agente Secreto” – concorre também como Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Direção de Elenco – na conta dos acadêmicos “ultranacionalistas” do nosso país, como se estivessem em quantidade excepcional entre os votantes (apenas 0,6% do total). É bom lembrar que, no ano passado, com “Ainda Estou Aqui”, a atriz espanhola Karla Sofía Gascón já tinha virado persona non grata ao insinuar que havia uma campanha contra ela por parte do representante nacional.
O primeiro embate entre “O Agente Secreto” e “Sirãt” aconteceu em maio passado, quando os dois filmes disputaram a Palma de Ouro do Festival de Cannes. O prêmio máximo ficou com o iraniano “Foi Apenas um Acidente”, de Jafar Panahi, também entre os cinco selecionados para a disputa do troféu de produção estrangeira. O brasileiro levou as estatuetas de Melhor Direção e Melhor Ator, e o espanhol, que tem o nome do aclamado Pedro Almodóvar na produção, ficou com o Prêmio do Júri.
Da mesma forma que o seu diretor é capaz de despertar celeuma ao dizer, num programa de TV, que, se tivéssemos enviado sapatos para apreciação do Oscar, votaríamos nele sem pestanejar, o filme também não deverá passar incólume à polêmica. “Sirãt” chega ao final com mais perguntas do que respostas. Geralmente essa indefinição é positiva, em filmes mais reflexivos, mas as questões que permeiam o filme espanhol se referem principalmente à sua moral.
O filme de Laxe abre margem para uma mensagem preconceituosa, além de ver países não desenvolvidos como sinônimos de perigo. Ao mesmo tempo, ele pode ser interpretado como um alerta sobre a falta de respeito e de vontade de conhecer culturas diferentes, como se o fato de ser de origem europeia pudesse servir de salvo-conduto, numa visão colonialista – especialmente na região africana, onde a colonização europeia foi marcada por muitos conflitos e lutas pela independência.
“Sirãt” parece repetir a estrutura dos filmes de terror, principalmente os do estilo “slasher”, em que um grupo (no gênero, jovens em busca de sexo) vai para uma região desconhecida, mesmo avisado de todos os riscos, pagando o preço por essa ousadia. O longa substitui adolescentes por adultos alienados que passam a vida em raves realizadas em lugares exóticos como desertos, atravessando fronteiras como se fossem parte de um filme de “Mad Max” – o estilo punk, por sinal, é bem semelhante ao dos personagens do thriller futurista distópico.
Um pai e um filho “normais” que acabam acompanhando o grupo ajudam a criar um retrato negativo. Boa parte da narrativa se estabelece em cima da desconfiança, como se a qualquer momento os punks fossem trair os dois personagens que só querem encontrar uma parente desaparecida. O sumiço nunca é devidamente explicado, deixando no ar que ela foi cooptada por outros grupos, sem dar notícia à família, que não teria nenhuma mácula para justificar a saída dela do lar.
Em outro momento de “Sirãt”, o grupo punk atravessa um rio com seus caminhões, deixando para trás o modesto trailer de pai e filho. Cria-se uma tensão de abandono e deslealdade, para logo depois dar um passo diferente, mas nunca se desfazendo totalmente da desconfiança – um companheiro inseparável na narrativa de Laxe. São detalhes que, reunidos, vão consolidando uma visão moralista, que se materializa no final trágico e de caráter punitivo, gerando uma reação perturbadora na plateia.
Embora não exagere nas tintas, ao exibir a cultura do país onde os personagens transitam, o filme espanhol tropeça ao não dar voz a esse elemento estrangeiro, que é usado justamente para ampliar a sensação de desconforto e medo, como se a qualquer momento soldados ou rebeldes fossem atravessar o caminho do grupo e provocar uma chacina. Pela TV, eles ficam sabendo que há um conflito armado na região, mas pouco refletem a respeito – o punk, vale ressaltar, é um movimento de postura política.
Esse desinteresse também pode ser interpretado como exemplo de soberba. A bela cena em que os estrangeiros viajam em cima de um trem ao lado de habitantes locais traz esse mea-culpa, mas é tarde demais para um filme carregado de preconceito e de ações punitivas – como vemos na sequência em que uma garota vai literalmente pelos ares após entrar em estado de consciência alterada e gritar “explode!”, ao pedir para aumentar o volume da música.
Nessa cena em particular, há uma associação imediata entre substâncias que provocam o transe (que podem ser vistas como drogas), o estilo de música, a cultura punk e a imagem violenta que Oliver Laxe nos apresenta – e que se repete por outras vezes na trama. Quando estão em alta velocidade pelo deserto, com música eletrônica a todo volume, o grupo se põe na mesma posição dos conquistadores de “Mad Max”.
“Sirãt” é bem editado e traz um ótimo elenco (Sergi Lopez, de “Uma Relação Pornográfica” e “O Labirinto do Fauno”, entre eles), mas, se os roteiristas tivessem incutido um pouco mais de sutileza, não perdendo o foco na história da garota desaparecida, eles alcançariam maior efeito, principalmente em relação à falta de compreensão sobre outras culturas que não as ocidentais, ressaltadas sempre pela lente do exotismo.


