Fertilização in vitro cresce no Brasil, mas segue inacessível para a maioria; SUS tem fila de 4 anos
Setor da medicina reprodutiva deve ter alta de 23% este ano, movimentando mais de R$ 3 bilhões; alto custo do procedimento ainda é barreira para muitas pessoas
Engravidar é, para muitas pessoas, um dos maiores sonhos da vida adulta. A ideia de formar uma família, ter um filho nos braços e construir uma nova geração atravessa histórias, afetos e expectativas. No entanto, para um número crescente de mulheres e casais, esse projeto tem se tornado mais difícil de concretizar. Seja pelo avanço da idade, por condições de saúde, por tratamentos médicos agressivos ou por causas ainda desconhecidas, a infertilidade passou a fazer parte da realidade de milhões de brasileiros.
Nesse cenário, a Fertilização in Vitro (FIV) se tornou um dos segmentos de saúde que mais crescem no país. Uma pesquisa feita pela Redirection International e divulgada pela Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) aponta que o setor da medicina reprodutiva deve crescer 23% este ano, movimentando mais de R$ 3 bilhões.
O dado revela não apenas o avanço tecnológico da área, mas também o aumento expressivo da demanda. No entanto, ao mesmo tempo em que o mercado se expande, especialistas alertam para um contraste evidente: a reprodução assistida no Brasil é um serviço majoritariamente privado, caro e distante da maioria da população. Por trás das cifras bilionárias, existe um cenário de exclusão.
O Brasil lidera a FIV na América Latina, realizando mais da metade dos procedimentos da região, mas o acesso a essa tecnologia ainda é um privilégio de poucos. Roberto Antunes, presidente da SBRA, explica que a estrutura do setor no país é quase integralmente voltada ao mercado particular, que tem em torno de 200 clínicas especializadas. “Cerca de 95% é um mercado totalmente privado, em que os pacientes têm que arcar com todos os custos”, afirma.
Os valores elevados são explicados pela sofisticação do tratamento, mas se tornam um bloqueio para as pessoas com menor poder aquisitivo. “São tratamentos complexos: as medicações são caras, o laboratório é caro, o congelamento em si é caro e demanda, muitas vezes, procedimentos cirúrgicos para a recuperação dos óvulos. Tudo isso ocorre sem suporte da medicina suplementar [planos de saúde] e com um suporte muito pequeno do SUS”, completa Antunes.
Essa configuração gera uma demanda reprimida, conforme o presidente da SBRA. Atualmente, o Brasil realiza cerca de 65 mil ciclos de fertilização por ano. O número cresce anualmente, mas ainda está longe de atender à necessidade real. “Em números absolutos, não atendemos nem 10% dos casais. Se levarmos em conta o tamanho da população, deveríamos estar fazendo acima de 300 mil ciclos”, projeta Roberto. Para ele, o alto custo de execução impede que os preços baixem sem que haja um subsídio governamental direto para a população sem acesso.
A mudança de perfil
Se o mercado está aquecido, o perfil de quem procura ajuda médica também passou por transformações. Marcos Sampaio, diretor da Clínica Origen BH, uma das pioneiras no setor, fundada em 1995, observa que a sociedade mudou sua relação com a parentalidade. “Antigamente, praticamente todo mundo que casava queria ter filhos. Hoje há um percentual grande de pessoas que não querem, ou que querem apenas um”, relata.
Essa mudança de comportamento reflete-se na idade em que os pacientes chegam aos consultórios. Segundo Sampaio, a média de idade para a primeira consulta na Origen BH é de 37 a 38 anos. “É relativamente tarde para o ovário, porque ele começa a sofrer aos 35”, observa o médico. Com o adiamento da maternidade, a maior demanda atual passou a ser pelo congelamento de óvulos. As mulheres buscam se proteger para o futuro enquanto decidem sobre a carreira ou o parceiro ideal.
Mesmo em clínicas que atendem majoritariamente às classes A e B, o fator financeiro é um desafio. Para tentar democratizar o acesso, centros como a Origen criam alternativas como o “Programa Alcance”, que oferece descontos significativos para casais de baixa renda. “A ideia é ajudar pessoas que não têm condição financeira para fazer um tratamento particular”, realça Sampaio.
Mitos, verdades e o tempo de espera
Segundo o diretor, a medicina reprodutiva ainda é cercada de desinformação, o que muitas vezes retarda a busca por ajuda. Um dos principais mitos, conforme ele, é acreditar que o procedimento “gasta” os óvulos da mulher. “O que o tratamento faz é resgatar os óvulos que seriam jogados fora naturalmente naquele mês. A mulher pode fazer quantas coletas quiser sem comprometer sua saúde ovariana”, esclarece.