A promessa de apoio do vice-governador Mateus Simões (PSD) enquanto pré-candidato ao Palácio Tiradentes ao governador Romeu Zema (Novo) na disputa pela Presidência da República ameaça o arranjo entre o PSD e o PL em Minas Gerais. Simões quer ser o nome apoiado pelo partido do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no estado, mas o PL exige que a chapa apoie a nível nacional a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — em detrimento de Zema e do candidato próprio que o PSD planeja lançar.
As siglas têm até o fim do primeiro semestre para registrar suas chapas na Justiça Eleitoral. Mas é consenso que adiar a definição atrapalha na corrida eleitoral, e os partidos querem apresentar ao eleitorado quais nomes concorrerão até, no máximo, abril. O PL indica que a única saída possível é o PSD admitir subir ao palanque de Flávio Bolsonaro em Minas Gerais, e a principal aposta de caciques do partido é na desistência de Romeu Zema – algo que ele rejeita publicamente.
Cenário
A filiação de Simões ao PSD para concorrer ao Palácio Tiradentes não o impediu de jurar fidelidade à candidatura do aliado Romeu Zema à Presidência da República. O movimento ocorreu a despeito da intenção de seu partido articular uma candidatura própria com os nomes dos governadores Eduardo Leite (RS), Ratinho Jr. (PR) e Ronaldo Caiado (GO) colocados sobre a mesa. O PSD aceitou, pelo menos na cerimônia de filiação, a promessa de lealdade feita por Simões.
Quatro meses depois, o ajuste não parece tão garantido porque ameaça o arranjo entre o partido e o PL, que Simões corteja para compor uma chapa de centro-direita. A articulação é negociada desde o ano passado com intervenção da estrela do Partido Liberal, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). A conversa travou depois que a legenda confirmou Flávio Bolsonaro como herdeiro político do pai, o ex-presidente Bolsonaro, e pré-candidato à Presidência pela direita.
O que impede a composição de uma chapa entre PSD e PL em Minas Gerais é justamente o fato de que o PL não aceita apoiar um candidato ao Palácio Tiradentes que não faça palanque para Flávio Bolsonaro. O assunto é tratado abertamente entre representantes do PL, que, nos estados, têm costurado os cenários necessários para fortalecer a candidatura de Flávio. O presidente do PL em Minas, deputado federal Domingos Sávio, admite que o apoio de Simões a Zema dificulta uma composição de chapa entre os partidos.
“O PL tem consideração pelo governador Romeu Zema, mas o nosso candidato é o Flávio. Não há a menor possibilidade de o PL não trabalhar unido em Minas pelo Flávio desde o primeiro turno”, afirmou. “Não podemos tomar a decisão sobre a situação em Minas sem avaliar com tempo… Por isso o PL ainda não tem definição final sobre o governo do estado”, disse, acrescentando que a sigla pode, entretanto, antecipar as negociações para o Senado. “Mas nada impede que seja definida a candidatura para uma das vagas até intensificar, de fato, o diálogo sobre as alianças”, indicou.
O deputado estadual Cássio Soares, presidente do PSD em Minas, por sua vez, não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre o assunto. Nas redes sociais, porém, Soares celebrou a recém-filiação de Caiado à legenda, como um movimento que fortalece os pessedistas para a disputa ao Planalto. “O governador Caiado tem os melhores números e índices de segurança pública de todos os estados da federação. E dessa forma, junto do Ratinho, do Eduardo Leite, nós vamos juntos construir”, disse ao destacar a participação de Simões no processo.
Zema valorizado
Para interlocutores de Mateus Simões e de Romeu Zema, o governador do estado, apesar de relegado a segundo plano com o rearranjo do PL, acabou tendo uma valorização no espólio político com a ida de Ronaldo Caiado ao PSD. A leitura é que sendo o único governador da direita a manter a pré-candidatura à Presidência, Zema terá um poder maior de barganha para negociar com PSD e PL até o fim do prazo para definição das chapas, mesmo com a baixa pontuação nas pesquisas divulgadas até então.
Pesaria a favor do governador a boa avaliação que ele tem com o eleitorado mineiro – o segundo maior do país e crucial para a disputa presidencial. Em 2022, Zema foi reeleito no primeiro turno com mais de 6 milhões de votos. Uma possibilidade que chegou a ser aventada é que ele se candidatasse, mas como vice de Flávio Bolsonaro. Arranjo que é defendido pelo senador Ciro Nogueira (PP) e pelo presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. Zema, porém, tem rechaçado a proposta. Nos bastidores, contudo, uma mudança nos planos eleitorais do governador não está descartada por quem acompanha os movimentos de pré-campanha.
Família Azevedo no radar
Caso Zema e Simões fechem palanque, uma possibilidade que voltou a ser cogitada internamente no PL mineiro é um possível apoio à candidatura do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) no lugar de Simões. A aliança já era defendida desde o final de 2025 por uma ala mais ideológica do partido que se posiciona de maneira contrária a um palanque com Zema e Simões.
Integrantes deste grupo acreditam que o senador poderá fornecer um palanque mais forte a Flávio Bolsonaro do que Simões em Minas, além de dialogar com o eleitorado mais fiel ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O próprio Cleitinho admitiu a possibilidade à reportagem, mas reforçou que a decisão sobre a candidatura dele ao governo de Minas será tomada apenas em março.
Um contragolpe do PSD, porém, também já é avaliado e mira colocar o irmão de Cleitinho e prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo (Novo), como vice de Simões. Isso só ocorrerá, no entanto, se o senador decidir por não concorrer ao Palácio Tiradentes.


