EconomiaPoupançaPoupança vira ‘termômetro’ do endividamento e diminui recursos para setor imobiliário

Poupança vira ‘termômetro’ do endividamento e diminui recursos para setor imobiliário

Saldo da caderneta de poupança tem registrado mais saques do que depósitos nos últimos anos

O saldo da aplicação na caderneta de poupança tem registrado mais saques do que depósitos nos últimos anos. Entre janeiro e outubro de 2025, a poupança registrou um resgate líquido de R$ 88,1 bilhões, conforme dados do Banco Central (BC). As saídas superaram as entradas em oito dos dez meses analisados pela autoridade monetária.

O resultado do acumulado deste ano é bem superior ao registrado no saldo negativo do ano passado, de R$ 15,5 bilhões, e já superou a volumosa retirada líquida de 2023, de R$ 87,8 bilhões. Para economistas, a situação acende o alerta para o custo de vida da população e também ameaça, de certa maneira, o crédito habitacional, que afeta diretamente o mercado imobiliário, sobretudo em programas como o Minha Casa, Minha Vida (MCMV), do governo federal.

O professor de Negócios da UNA, Stênio Tales Afonso, explica que o governo federal utiliza o dinheiro aplicado na caderneta de poupança da mesma maneira que faz com os recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), para financiamento de casa própria, principalmente, ou até mesmo em outros programas.

Porém, o número bem maior de saques do que de aplicações na poupança não tem relação com a aquisição de residências pela população, aponta o professor da UNA.

O movimento está mais relacionado ao nível elevado do endividamento do brasileiro, em meio a um cenário de instabilidade da cotação do dólar ante ao Real e alta taxa básica de juros (Selic), atualmente no maior nível desde julho de 2006, ainda durante o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“A gente consegue perceber que o poder de compra do brasileiro tem reduzido ano após ano, por diversas situações econômicas, políticas, mundiais, guerras, dentre outros pontos. Então o brasileiro acaba resgatando boa parte desse recurso, para conseguir manter-se com um aumento excessivo que a gente tem tido nos preços, principalmente alimentos, nos últimos anos”, analisa.

A especialista em finanças pessoais da Escola de Negócios (IAG) da PUC-Rio, Graziela Fortunato, destaca que a Selic muito alta reduz a demanda por crédito habitacional, então os efeitos de uma grande retirada da caderneta de poupança podem não ser tão sentidos agora, mas no longo prazo.

“Se a taxa de juros cair, as pessoas vão procurar mais crédito habitacional. Esse recurso (poupança) seria direcionado para isso e aí pode faltar crédito”, disse a especialista da PUC-Rio. “No entanto, obviamente, nesse caso o governo vai direcionar outras fontes de recurso para esse tipo de financiamento. Não é um grande problema nesse ponto, porque vai existir uma flexibilidade”, completou.

Além disso, Graziela Fortunato pontua ainda que, com Selic nas alturas, permanecer com o dinheiro aplicado na caderneta de poupança não é algo tão atrativo financeiramente, e investimentos por outros caminhos, como as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), isenta de Imposto de Renda, podem se tornar interessantes e, ao mesmo tempo, fornecer mais recursos para o crédito imobiliário.

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