Evento realizado com a intenção de ser uma vitrine da Amazônia e do governo brasileiro para o mundo, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) tem chamado atenção não somente pelos debates referentes às questões climáticas, mas também pelos problemas de infraestrutura, esvaziamento em relação às cúpulas anteriores e polêmicas na organização.
Na semana passada, durante a realização da Cúpula do Clima – evento que antecede a COP30, reunindo apenas líderes – já tinha ficado claro que o encontro estava mais esvaziado em relação aos encontros de anos anteriores. Foram registradas as presenças de 32 líderes no total. Esse número significa uma queda de 54% em relação à COP29, realizada em Baku, capital do Azerbaijão, no ano passado, quando 70 líderes compareceram.
Quando o recorte é apenas para presidentes, foram 15 presenças em Belém, frente a 31 no Azerbaijão. Entre as presenças mais ilustres que estiveram na capital paraense durante a Cúpula estão Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, Emmanuel Macron, presidente da França, e o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres.
A redução no número de participantes não ficou restrita somente aos líderes. Iniciada na segunda-feira, a COP30 registrou a inscrição de 56,1 mil pessoas, uma queda de 15% em comparação com a COP29, quando 66,7 mil estavam inscritos na abertura da conferência em Baku.
De acordo com Pedro Loureiro, que é economista, professor do Instituto Federal do Pará (IFPA) e conselheiro do Conselho Federal de Administração (CFA), há duas explicações para a redução no número de líderes na cúpula: os preços exorbitantes que vinham sendo cobrados por hospedagem e a ausência dos líderes de Estados Unidos e China – mesmo que o evento contasse com outros representantes desses países.
“No momento em que os dois principais poluidores do mundo não estão presentes na negociação, muita gente se pergunta: o que é que eu vou fazer lá?”, afirma Loureiro. “Algumas delegações de países com menos recursos desistiram de fato por causa dos valores das hospedagens, mas houve desistência também de líderes de países que tinham condições de vir, mas optaram por não vir por questões políticas”, completa.
Os Estados Unidos deixaram o Acordo de Paris e não enviaram uma delegação oficial do governo de Donald Trump. O país está presente na COP30 por meio de iniciativas individuais de governadores e prefeitos democratas.
Perrengues
O primeiro dia da COP30, nesta segunda-feira, foi marcado por questões na infraestrutura e na oferta de alimentação para os visitantes. Uma chuva intensa provocou goteiras e poças de água no pavilhão central. Houve registro de falta de água, problema no ar-condicionado e atraso na instalação de equipamentos eletrônicos.
A abertura da conferência também foi marcada por longas filas nos espaços de alimentação. Algumas pessoas precisaram se sentar no chão por não haver cadeiras suficientes no local. Os preços altos dos alimentos comercializados foram tema de polêmica nas redes sociais – com reclamações de um lado e comparações com os valores cobrados em grandes eventos de São Paulo.
Pedro Loureiro disse que os problemas do primeiro dia de COP30 já foram resolvidos pela administração do evento, que se estende até o dia 21. Ele explicou por que os valores da alimentação estavam mais altos do que se costuma ser cobrado em estabelecimentos de Belém.
“As regras para quem vai montar restaurante ou lanchonete dentro são muito rígidas e afetam muito o preço. Por exemplo, o aluguel do menor estande que tem, o menor de todos em tamanho, por esses 15 dias, o aluguel chega a aproximadamente R$ 23 mil. A folha de pessoal para atender deve chegar num estande desse pequeno a R$ 15 mil. Além disso, não se pode produzir nada dentro da COP, os produtos devem chegar prontos. Ou seja, a reposição dos dos dos produtos só pode ser feita das 22 h às 5 horas da manhã, o que é muito mais caro”, argumentou o economista.
Sigilo
Algumas informações sobre gastos do governo federal em Belém estão sendo mantidas em sigilo. O contrato referente à contratação do iate onde estão ficando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua esposa, Janja, e assessores, não foi divulgado e, por isso, não se sabe quanto foi acordado com a empresa responsável. A única informação confirmada pela Secretaria de Comunicação foi que o custo pela diária da embarcação é de R$ 5,3 mil por casal. Não há informação de quantas pessoas estão sendo abrigadas neste iate. A expectativa do governo federal é gastar cerca de R$ 5 bilhões com a COP30.


