A parceria entre Uber e iFood para integrar serviços entre as plataformas começa por Belo Horizonte nesta segunda-feira (17/11). Agora, os usuários belo-horizontinos do iFood poderão acessar viagens da Uber diretamente pelo aplicativo de delivery. As duas gigantes da tecnologia também lançaram um pacote de assinatura que une os programas de fidelidade das duas plataformas.
A iniciativa aquece ainda mais o já acirrado mercado de aplicativos de serviços no país e coloca a capital mineira no centro do tabuleiro. O segmento vivencia a chegada de novos concorrentes, investimentos robustos e troca de acusações entre rivais por concorrência desleal.
Na última semana, a 99Food, plataforma de delivery de comida da 99, estreou em fase de testes na Região Metropolitana de Belo Horizonte(RMBH), após começar a operar em Campinas, Goiânia, Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro. Em outubro, a Keeta, braço internacional do Meituan, a maior empresa de delivery de restaurantes do mundo, desembarcou no país. Mesmo recém-chegada, a empresa já trava uma batalha judicial com a 99 pela disputa do mercado brasileiro.
É neste ambiente acirrado que Uber e iFood firmaram parceria. Até o fim de dezembro, os usuários do iFood em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Campinas, Goiânia, Recife, Porto Alegre e Salvador verão a Uber dentro do aplicativo de delivery. No mesmo mês, os consumidores de Belo Horizonte passarão a ver o iFood dentro do app de transporte.
Em janeiro de 2026, as gigantes de delivery de comida e do transporte particular farão a expansão completa da integração para todas as cidades onde as duas empresas operam. Segundo Uber e iFood, Belo Horizonte não foi escolhida para o pontapé inicial da novidade por acaso.
Reconhecida por ser aberta a novas experiências, a cidade servirá como um campo de testes para a expansão nacional das novas funcionalidades dos aplicativos. Além disso, Belo Horizonte tem uma proporção relevante nos dois negócios, afirmam, em entrevista exclusiva para o jornal O Tempo, o CEO do iFood, Diego Barreto, e a CEO da Uber, Silva Penna.
“É o terceiro maior mercado para o iFood, de um público muito fiel, leal, mas mais do que isso, é um público que a gente sempre usou para fazer muito teste, porque é muito aberto para experimentar, conhecer. Para nós sempre foi um caminho claro. Quando a gente trouxe esse tema para o Uber, ecoou algo muito parecido. Então, ficou muito óbvio para escolher”, disse o CEO do app de delivery de comida.
“Os mineiros e os belo-horizontinos têm uma barra muito alta. Então, para a gente testar e ver se o produto funciona, é muito bom a gente fazer isso em Belo Horizonte, para ver qual que é a recepção, quais são os feedbacks, quais são os aprendizados”, declarou a CEO do app de transporte particular.
Ambos rechaçam que a parceria entre os apps seja motivada pelas recentes movimentações do mercado. Segundo os CEOs, a ideia de integrar os apps surgiu muito antes dos acontecimentos mais relevantes. Ao mesmo tempo, os dois esperam uma fidelização maior dos usuários e a atração de novos consumidores.
As plataformas esperam que uma conquiste os clientes da outra que ainda não fazem parte da base de usuários. Ou seja, além de reter usuários, a Uber espera atrair aqueles consumidores do iFood que não utilizam Uber e vice-versa.
“Tenho total convicção de que vamos crescer, porque o Uber traz uma base de consumidores que eu ainda não acesso e, ao mesmo tempo, ele tem uma relação de muita lealdade com seus consumidores, o que aumenta a probabilidade de tentar acessar esses consumidores, ser visto, percebido e testado”, destacou Barreto.
“Sem dúvida nenhuma a gente acredita que vai crescer, porque tem uma base ali que nós também não temos acesso. A gente acessa e passa a trazer essa sinergia, que acho que traz bastante engajamento”, avalia Silvia Penna.
Digitalização aquece mercado e integração de apps será mais recorrente
Para o economista e professor de MBAs da FGV, Roberto Kanter, o segmento de delivery no Brasil cresce de uma maneira muito intensa, devido a uma crescente digitalização da população brasileira. Ele aponta que a digitalização já está consolidada nas classes A e B e aumenta cada vez mais na classe C.
E é a classe C que é a base de expansão do mercado, segundo Kanter, e que acaba criando uma lacuna no segmento, ao ainda enxergar o iFood como um app de elite. Na avaliação do economista, é esta lacuna, de ser uma alternativa popular ao iFood, que 99Food e Keeta disputam.
“Quanto mais a classe C começa a utilizar aplicativos de mercado e comida, essa base que já é enorme aumenta ainda mais. Com isso, o potencial de negócios é muito grande. É isso que trouxe a Keeta ao Brasil, já que eles têm uma experiência enorme com os milhões de chineses no mercado”, analisa.
Além dessa disputa por públicos, o economista da FGV destaca que será cada vez mais comum ver a integração entre plataformas tecnológicas, semelhante ao que acontece com os shoppings dentro dos aplicativos de bancos. “Quando você tem um motor tecnológico, se juntar faz todo sentido. Ter plataformas conectadas onde o cliente de um usufrui dos benefícios do outro”, explica Kanter.
A integração de planos de fidelidade, como anunciado por iFood e Uber, é um movimento interessante, na opinião de Kanter, apesar do economista ainda ver com ceticismo, já que é mais difícil conectar programas de fidelidade do que serviços.
“Se eles conseguirem encontrar uma conversão razoável, que, ao invés de prejudicar o cliente, gere até um benefício adicional, é sensacional. Vejo como uma maneira muito interessante de construir engajamento e lealdade, através de programas de fidelidade”, declarou o professor da FGV.
99Food confia em vitória contra Keeta em ‘guerra dos apps’
A 99 investiu R$ 100 milhões para iniciar a operação do 99Food em Belo Horizonte, integrada aos serviços de transporte, entrega e pagamentos no seu aplicativo. A plataforma de delivery de comida da 99 chegou a encerrar suas atividades no Brasil em 2023, mas a empresa voltou a apostar no mercado brasileiro, com planos de investir R$ 2 bilhões e alcançar cem cidades até junho de 2026.
Já o app Keeta promete investir R$ 5,6 bilhões no país nos próximos cinco anos. Antes mesmo de começar a operar, em outubro, a empresa contestou nos tribunais a cláusula de exclusividade da 99 com alguns restaurantes. A acusação era de que a 99 pretendia “barrar” a entrada do novo app no mercado brasileiro. Inicialmente, a novata obteve uma sentença favorável, mas uma nova decisão deu vitória à 99food.
O diretor de comunicação da 99, Bruno Rossini, em entrevista exclusiva ao jornal O TEMPO, declarou ter confiança de que a empresa vencerá a disputa contra a Keeta no poder judiciário. Segundo ele, o tribunal paulista reconheceu a legalidade das práticas da 99Food na última decisão, quando analisou o mérito da causa.
O diretor da empresa afirma que a 99Food não tem mercado e nem força suficiente para impor a exclusividade aos restaurantes e que a maioria dos estabelecimentos não escolhe nem exclusividade total, nem a parcial, mas sim os contratos isentos de comissão e mensalidade.
“Temos um número muito pequeno e selecionado de restaurantes que têm exclusividade e estamos falando de mais de um milhão e meio de restaurantes no Brasil”, argumenta Rossini. “É impossível que práticas de exclusividade por uma empresa entrante, que não tem market share, venha a ser impeditivo para outras plataformas entrarem no mercado”, completa.
Rossini ressaltou ainda que a 99 vê “com bastante responsabilidade e calma” o monitoramento anunciado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) das atividades da 99Food, Keeta, iFood e Rappi, comunicado às empresas neste mês.


