NacionalPolícia FederalAnúncio de compra do Master pelo BRB abriu investigações; entenda o caso

Anúncio de compra do Master pelo BRB abriu investigações; entenda o caso

Técnicos do Banco Central apontaram, entre outras coisas, o risco de o BRB, um banco público, ser contaminado pelos ativos do Master considerados 'podres'

BRASÍLIA – A Polícia Federal prendeu na noite desta segunda-feira (17/11), em São Paulo, o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em uma operação para apurar suspeitas de crimes envolvendo a venda do Master para o BRB, Banco de Brasília, do Governo do Distrito Federal.

Já na manhã desta terça (18/11), policiais federais foram às ruas para cumprir cinco mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 25 de busca e apreensão. Outro alvo é Augusto Lima, que também é sócio do banco Master. Agentes vasculharam a sede do BRB, na capital federal.

Ao mesmo tempo, o Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, menos de um dia depois de o Grupo Fictor ter indicado o interesse em comprar a instituição. A liquidação acaba com a possibilidade de o acordo avançar.

A operação desta terça-feira é fruto de investigação que detectou suspeitas da emissão de títulos de crédito falsos pelo banco Master. Esses títulos teriam sido vendidos ao BRB e, após a fiscalização do BC, foram substituídos por outros ativos sem avaliação técnica adequada.

A operação Compliance Zero busca provas de crimes de gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa, dentre outros.

Banco Central reprovou acordo

Em setembro, o BC reprovou a compra de uma fatia do Master pelo BRB. O BC passou cinco meses analisando o processo. Técnicos apontaram, entre outras coisas, o risco de o BRB ser contaminado pelos ativos do Master considerados “podres”.

Desde o anúncio, a operação financeira foi vista como uma forma de socorro do Master por parte do BRB, um banco público. O negócio passou a ser investigado pelo Ministério Público (MPDFT) e pelo Ministério Público de Contas do Distrito Federal (MPCDF).

A compra do Master pelo BRB também foi acompanhada pela Câmara Legislativa do DF e instituições do Governo Federal. A câmara distrital acabou aprovando a negociação. Já o mercado financeiro via a transação com preocupação, por causa do histórico da instituição privada.

O negócio chamou a atenção do mercado financeiro pelo rápido crescimento do Master, além de alertas de operações do banco fora do padrão levados ao BC.

A Moody’s, agência de classificação de risco, divulgou relatório sobre a operação alertando que ela apresenta riscos de execução e integração devido ao fato de envolver um banco público, com governança complexa, e um banco privado com estrutura complexa e alta concentração de empréstimos, uma parte deles sendo “recebíveis ilíquidos”.

Entenda o negócio

Em 28 de março, o BRB informou aos acionistas e ao mercado sobre o contrato de compra e venda de ações do Banco Master S.A..

O Conselho do BRB aprovou a compra de 58% da instituição financeira privada. O negócio era estimado entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões.

O BRB afirmou que a operação envolveu 49% das ações ordinárias, 100% das ações preferenciais e 58% do capital total do Master.

O banco estatal dizia ainda que duas empresas iriam atuar apartadas, mas dividindo governança e coordenação estratégica.

Em setembro, o BC reprovou a compra de uma fatia do Master pelo BRB.

A Secretaria de Regime Próprio e Complementar (SRPC) do Ministério da Previdência Social (MPS), analisou as aplicações de R$ 960 milhões da Rioprevidência no Master.

A Rioprevidência é responsável pela gestão de recursos que pagam aposentadorias e pensões de mais de 235 mil servidores públicos estaduais do Estado do Rio de Janeiro.

Os donos do BRB e do Banco Master e suas relações na política

O Banco Master pertence ao mineiro Daniel Vorcaro, 41 anos, que é sócio em empresas de diversos ramos (como o Fasano do Itaim, em São Paulo, e o Will Bank) e dono de aproximadamente 26% da Sociedade Anônima de Futebol (SAF) do Atlético Mineiro.

Em 2023, Vorcaro ganhou destaque nacional ao gastar cerca de R$ 15 milhões na realização da festa de 15 anos da filha em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, com direito a show do DJ Alok. Na mesma época, ele teria comprado a mansão mais cara já negociada em Orlando, na Flórida, por US$ 37 milhões.

Daniel Vorcaro é próximo do ex-ministro Ciro Nogueira e do presidente do União Brasil, Antonio Rueda. Augusto Lima, o sócio baiano do Master, é casado com a ex-deputada federal e ex-ministra do governo Bolsonaro Flávia Peres (ex-Arruda), próxima de Ibaneis Rocha (MDB), o governador do DF, controlador do BRB.

O BRB foi criado em dezembro de 1964 para ser um agente financeiro para captar os recursos necessários para o desenvolvimento do Distrito Federal. Em 1991, passou a ser um banco com as carteiras: comercial, câmbio, desenvolvimento e imobiliária.

A empresa é uma sociedade de economia mista, de capital aberto, e o acionista majoritário é o Governo do Distrito Federal (71,92%). O BRB é uma instituição financeira com atuação no Distrito Federal e com agências no Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Bahia e Paraíba.

Já o Banco Master foi fundado em 1974 como corretora de valores e títulos imobiliários. Teve a aprovação do BC para operar como instituição financeira em 1990, ainda com o nome de Banco Máxima. Após a compra do Banco Vipal, a instituição foi renomeada como Banco Master, em 2021.

O Master acelerou o crescimento nos últimos anos com uma estratégia considerada agressiva. Ofereceu CDBs a taxas que chegaram a 140% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário), enquanto o mercado mal encosta em 100%. Na posição de banco de pequeno porte, colocava o produto no mercado por meio de outras instituições. Na outra ponta, fazia empréstimos e investimentos em empresas consideradas problemáticas.

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