PolíticaCongresso NacionalSem votos, base de Lula já admitia derrota em MP do IOF

Sem votos, base de Lula já admitia derrota em MP do IOF

Ao longo da tarde desta quarta (8/10), deputados se queixavam de Tarcísio e reclamavam de rompimento de acordo de União Brasil e PP

BRASÍLIA — Antes mesmo de a medida provisória (MP) do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) ser enterrada pela Câmara dos Deputados, a base do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já admitia a derrota nesta quarta-feira (8/10). Sem votos para aprová-la, os deputados federais passaram a se queixar do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), a quem atribuíram a derrota.

Após as bancadas de União Brasil, PP, PSD e Republicanos terem fechado questão contra a MP, deputados federais da base diziam, ao longo desta quarta-feira, que o assunto havia deixado de ser “técnico” para ser “político”. Questionados por que a desidratação feita pelo relator, Carlos Zarattini (PT-SP), não foi o bastante, eles se referiam a “um projeto eleitoral entre o centrão e Tarcísio”.

Favorito para herdar o espólio eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como candidato à presidência em 2026, Tarcísio teria pedido aos presidentes nacionais do PSD, Gilberto Kassab, do União Brasil, Antonio Rueda, e do PP, Ciro Nogueira, para pressionar as bancadas a votarem contra a MP. Ao lado do Republicanos, os partidos têm, juntos, 199 deputados federais.

Às vésperas do início da votação, o líder do União Brasil na Câmara, Pedro Lucas, confirmou que a bancada fechou questão após orientação da Executiva nacional. “É uma questão bem clara contra o aumento de impostos. A grande parte do relatório (da MP) é aumento de imposto e o União Brasil é contra o aumento de imposto”, justificou.

Ao ser questionado se a orientação do União Brasil seria uma retaliação à permanência do deputado federal licenciado Celso Sabino (União Brasil-PA) como ministro do Turismo, Pedro Lucas negou. “A gente não decidiu politicamente. A gente decidiu tecnicamente”, disse, antes de deixar às pressas a coletiva à imprensa.

Sem votos, o líder do PT, Lindbergh Farias (RJ), subiu o tom contra a articulação da oposição, que chamou de “sabotagem”. “É uma vontade de tentar impor uma derrota política ao governo do presidente Lula, mas, na verdade, estão impondo uma derrota ao Brasil, não ao presidente Lula, porque estão cortando R$ 35 bilhões, que não é dinheiro novo”, afirmou.

Antes prevista para 17h, a coletiva de Lindbergh foi adiada em 30 minutos em razão de outra entrevista, a do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O ministro afirmou que o Planalto queria apenas que o acordo que levou à desidratação da MP fosse cumprido. “Penso que aqueles que querem desorganizar o Orçamento, com finalidade eleitoral, vão se equivocar novamente”, pontuou.

De acordo com Zarattini, o acordo que levou à manutenção da isenção de IR das letras de crédito do agronegócio (LCA) foi costurado com a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), com o União Brasil e com o PP. “Se estão falando que não tem acordo, sinceramente, eles precisam dizer isso na minha cara para eu ter certeza de eu saber quem são essas pessoas”, criticou.

Sem perspectiva de vitória, Lindbergh chegou a anunciar que o PT iria propor um destaque para que o plenário votasse a versão original da MP em vez do relatório de Zarattini. “Foi feito um acordo e o acordo foi rompido. Foi feito um acordo com o agro, foi feito um acordo que envolvia a liderança do PP e do União Brasil e eles romperam”, reiterou.

Questionado se a base estaria admitindo a derrota do MP, Lindbergh desconversou. “Nós estamos em uma situação difícil. Nós vamos para o plenário… a esperança sempre é a última (que morre). Nós vamos lutar até o último instante, e eu, quando estou dizendo que vai ser um tiro no pé deles e do Parlamento, espero que pensem nisso”, afirmou.

Apesar das acusações de “sabotagem” da base do governo, deputados federais ouvidos se referem à derrota como uma espécie de “choque de realidade” ao Palácio do Planalto após a aprovação da isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil há uma semana. A aprovação da isenção do IR não tem a ver com a força do governo na Câmara, alegam.

Além disso, há entre deputados federais de partidos da própria base do governo Lula um descontentamento com a forma como são atendidos pelo Palácio do Planalto e uma insatisfação com o atraso em pagar emendas, cuja execução está restrita desde que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino passou a exigir transparência e rastreabilidade de valores.

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