Apesar de o ponto de partida do espetáculo ser o acidente de ultraleve sofrido por Herbert Vianna, que ficou paraplégico e teve perda de memória, em fevereiro de 2001, o espectador de “Vital – O Musical do Paralamas” não ficará sem ouvir os sucessos mais antigos de uma das maiores bandas do rock nacional, o Paralamas do Sucesso, grande homenageado da peça que ficará em cartaz de sexta a domingo, no Cine Theatro Brasil.
“O ponto de partida é o Herbert ali no hospital depois do acidente, mas durante a narrativa a gente vai e volta, passando por todas as fases do grupo. A gente acompanha a história biográfica e também a evolução musical da banda, que é muito rica. Eles começam como um grupo mais de rock, com influência inglesa, e depois passam a incorporar mais elementos da MPB”, registra o diretor Pedro Brício.
A peça conta com 30 músicas que estampam todas as fases do grupo quarentão, formado em 1982 por João Barone (baterista) e Bi Ribeiro (baixista), além de Herbert Vianna (vocal e guitarra). Embora haja um grande número de canções, Brício revela que não foi fácil fazer a seleção. “Foi um difícil bom, porque a discografia deles tem muitas músicas boas, com hits dançantes e baladas de sucesso”.
Nascido em 1972, o diretor acompanhou o início esfuziante do Paralamas, adquirindo os dois primeiros discos – “Cinema Mudo” (1983) e “O Passo do Lui” (1984) – no formato vinil. “Escutei muito na minha adolescência. Não era tão fã quanto do Titãs, mas, quando me convidaram para dirigir o espetáculo e comecei a fazer a pesquisa, eu me dei conta de como o Paralamas faz parte do nosso cancioneiro”, relata.
A plateia, é claro, canta junto com os atores que fazem os papéis do power trio, mas Brício observa que, ao contrário do que muita gente imagina, o público não é composto só por pessoas de cabelos grisalhos. “Tem os que viveram a época, mas também um pessoal mais jovem que vai com os pais. O produtor (da banda) Zé Fortes disse para a gente que, depois que lançamos a peça, aumentou o número de plays no Spotify”.
O ponto central do espetáculo é a relação de amizade que move Herbert, Bi e Barone (além de Fortes, que é uma espécie de quarto “paralama”), especialmente após o abalo causado pelo acidente do vocalista, em Mangaratiba, no Rio de Janeiro. “Foi uma tragédia na vida deles, né? A esposa do Herbert (Lucy) morreu no acidente. É a história sobre como tudo ia bem para uma banda e vem uma fatalidade”, destaca Brício.
O diretor comenta que o Paralamas precisou se reinventar na época. “Ficou em xeque se o Herbert voltaria a tocar ou não. Então tem uma história de superação também. Além de ser uma história sobre amizade, o espetáculo também fala da importância para a superação do Herbert, já que eles montaram um estúdio na casa do Herbert para que a música pudesse ajudar o cérebro dele a se recuperar”, salienta.
Título faz referência ao som pulsante
O título da peça, com ênfase em “vital”, nos remete a um dos primeiros sucessos do Paralamas, “Vital e Sua Moto”, presente no álbum de estreia, “Cinema Mudo”. Ela foi inspirada em Vital Dias, primeiro baterista do grupo e famoso por exibir uma moto que o fazia se “sentir total”. Após sair da banda, ele virou funcionário público e, em 2015, faleceu em decorrência de um câncer.
O personagem está presente na trama musical escrita por Patrícia Andrade, mas o título do espetáculo tem ainda outra motivação, como explica o diretor artístico Pedro Brício. “Vital é um personagem importante e simbólico, uma espécie de narrador. Mas o título tem um duplo sentido – é a música e também algo que define a banda, como sinônimo de vitalidade, de algo pulsante. E o espetáculo é isso também”.
Os integrantes do Paralamas do Sucesso já viram a peça e “adoraram”, nas palavras de Brício. “Já viram várias vezes, o que é bem interessante, já que no início estavam bem reticentes. Fomos conquistando eles aos poucos. Eles não sabiam no que iria dar. O engraçado é que o Zé Fortes até virou amigo do ator que o interpreta, o Hamilton Dias. Gostou tanto que o convidou para passar o Natal com a família dele”, revela o diretor.
Outra curiosidade diz respeito ao ator que faz o paciente internado junto de Herbert Vianna na época do acidente. Seu nome é Herbert Vital. “Ele é um ator PcD (Pessoa com Deficiência) e que sofreu um acidente de moto… Essa presença é muito importante, primeiramente por dar espaço a atores PcD e, segundo, pela temática”, sublinha Brício.


