EntretenimentoStreaming'Eles Vivem' mostra a dominação de alienígenas no planeta

‘Eles Vivem’ mostra a dominação de alienígenas no planeta

Filme de John Carpenter já está disponível no cardápio da plataforma FILMICCA

Lançado em 1988, “Eles Vivem” merece um remake por parte de John Carpenter, diretor do filme original. A mensagem desse clássico da ficção-científica distópica, agora disponível na plataforma FILMICCA, continua bastante forte, só perdendo vigor nos efeitos especiais, principalmente por seu tratar de uma invasão alienígena de raça mais avançada.

Esse caráter B, que já prevalecia na época do lançamento, traz um quê nostálgico depois de 27 anos e até permite uma leitura histórica sobre o capitalismo selvagem, que vivia o auge do yuppismo e do culto à beleza e do individualismo. Nostalgia pela parte comportamental (o mullet e os rostos muito máquinas das mulheres) e pela preocupação zero de Carpenter em gerar cenas realistas.

O cineasta, criador de franquias como “Halloween” e “Fuga de Nova York”, nunca escondeu que o terror e o medo estão dentro de nós mesmos. Como no expressionismo alemão e na Nova Hollywood, movimento mais autoral da indústria americana nascido no final dos anos 60, a obra de Carpenter dá protagonismo aos vilões, no que está por traz de suas intenções.

Assim, por mais ficcionais que sejam, o mal contido neles é bastante palpável. Carpenter é fruto de um grande ceticismo na humanidade, característica de boa parte das principais produções dos seventies. É por isso que muitos personagens são outsiders, lutando contra o sistema – de Snake Plissken (“Fuga de Nova York”) a John Nada, o operário que protagoniza “Eles Vivem”.

Ele é solitário, desconfiado e observador, preferindo não participar de um lado ou outro, mas, quando é provocado, sua determinação não tem limites. É um caubó dos tempos modernos, numa terra sem lei. Nos filmes de Carpenter, geralmente as regras são abolidas ou ganham força de exceção, muitas vezes como forma de manipulação de quem está ou almeja o poder.

Por esse viés, “Eles Vivem” é bastante atual, principalmente ao mostrar a forma de dominação da sociedade humana pelos alienígenas. Ela é sutil, porque os invasores optam por ocupar postos-chave (na política, nos órgãos de proteção e no empresariado) e, deste modo, exercer o controle sem chamar a atenção, prolongando, assim, a sua permanência no poder.

Tanto é assim que o primeiro alienígena visto por John, a partir de un dispositivo colocado em óculos escuros, é um executivo. Já os desempregados que vivem comunidades precárias, como as favelas brasileiras, são todos humanos. Em sua maioria, estão desempregados ou vivendo de trabalhos temporários, o que se torna claramente uma maneira de assegurar o poder.

Quando John resolve, por conta própria, só com a ajuda de um colega operário, desmascarar os alienígenas, ele descobre que a elite econômica fez um acordo com eles, permitindo que tomem posse do planeta em troca de certas garantias, especialmente financeiras. A “traição”, portanto, parte dos mais abastados, enquanto cabe a classe menos privilegiada a missão de salvar a humanidade.

Diferentemente das ficções-científicas produzidas durante a Guerra Fria, em que se criava uma relação entre invasores e russos, o grande inimigo é interno. Baseando-se no conto “Eight O’clock in the Morning”, de Ray Nelson, Carpenter ainda faz críticas ao uso político e econômico da mídia e à exaltação da superficialidade e do consumismo para esconder temas mais relevantes.

O texto aponta que a manipulação está em pequenos detalhes, como capas de revistas, outdoors e sinais de trânsito, usados fazer a população obedecer e aceitar tudo o que é proposto. Não deixa de ser curioso que, ao usar os óculos e ter a possibilidade de enxergar a realidade, o personagem de Roddy Piper (lutador de wrestling já falecido) tem a sensação de experimentar uma droga poderosa.

Para quem gosta de coincidência, o ano de 2025 é mencionado no filme, no momento em que John acompanha clandestinamente uma reunião entre extraterrestres e humanos aliados. Um dos líderes diz que “nossas projeções mostram que, até 2025, não apenas os Estados Unidos, mas todo o planeta estará sob a proteção e dominação dessa aliança de poder”. Quem disse a palavra “globalização”, pode estar no caminho certo.

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