“Nunca esquecerei as metralhadoras”, relatou um dos veteranos homenageados neste aniversário da batalha determinante para o fim da 2ª Guerra Mundial
Richard Rung se lembra nitidamente: a artilharia alemã atirando em sua lancha de desembarque, o som dos projéteis das metralhadoras acertando a embarcação, o sangue e a água do mar misturando-se no convés, soldados chorando na praia.
Ele agora mora em um subúrbio de Chicago com Dorothy, sua esposa há 75 anos, mas as lembranças da violência e da morte que testemunhou do outro lado do mundo ainda estão claras e aquela data remota ainda parece ter acontecido outro dia.
“Sabe, o ‘Dia D’ não parece muito longínquo”, diz Rung, hoje um senhor grisalho e de bigode de 99 anos, vestindo um casaco azul com emblema da Marinha americana.
‘Atiraram em nós’
A saga de Rung até a Normandia começou quando ele foi recrutado em 1943, após escolher a Marinha aconselhado pelo pai, que lhe disse, “Pelo menos estará no mar, terá algo para comer”.
Ele sonhava em servir em um destróier, mas o encarregaram de manter ligado o motor de uma lancha de desembarque por causa de seu conhecimento sobre motores obtido em uma escola técnica. A sequência de acontecimentos o levou para a França.
Após cruzar o Canal da Mancha, a lancha de desembarque de Rung chegou à praia de Omaha como parte de uma segunda onda do ‘Dia D’, sob intensos fogo de artilharia alemã e tiros de metralhadora. “Baixamos a rampa às 7h30… E eles abriram fogo sobre nós”, conta.
“Os alemães esperaram até fazermos aquilo porque não conseguíamos sair rapidamente por ter que baixar a rampa”, conta.
Apesar do perigo, ele tentou ver o que estava acontecendo, para desgosto de seu capitão. “Ele olhou para baixo e disse, ‘Dick, abaixe-se!’ Eu queria ver”, diz Rung, que lembra ter ouvido balas atingindo a lateral da lancha de desembarque ao olhar para a praia. “As metralhadoras eram terríveis”, conta. “Nunca esquecerei as metralhadoras”.
O diário de bordo do navio, que Rung copiou em seu próprio diário pessoal, faz um relato militar resumido do desembarque.
“Chegada à praia às 7h30. Bem vigiada. Sofremos impactos de dois 88 mm. Um no armário a estibordo, um no quarto do capitão, um buraco de 47 mm no bastião a estibordo. Dois soldados mortos, dois gravemente feridos. Um 47 mm atravessa a extensão da rampa”.
Encontrar um local e descarregar o navio levou horas, mas a missão precisava ser concluída antes de os feridos serem levados para um navio-hospital.
‘Foi terrível’
Rung contou que o convés da lancha de desembarque estava cheio do sangue de soldados feridos misturado à água do mar que entrou quando a rampa foi baixada, e que os membros da tripulação tiveram que limpar mais tarde.
“Se não fossem baleados por um rifle, poderiam facilmente pisar em uma mina”, contou.
Dois dias após ‘Dia D’, Rung fez uma terrível descoberta na praia.
“Foi quando eu descobri aquela pilha enorme de braços e pernas”, relembra, pensando em como seria possível identificar alguém a partir daqueles restos.
‘Paz, não guerra’
Depois de mais de dois meses na Normandia, Rung foi enviado para o Pacífico, e estava em Leyte Harbor, nas Filipinas, quando o Japão se rendeu formalmente, em 2 de setembro de 1945.
“Ninguém podia imaginar a sensação poderosa que sentimos em ver e saber que a guerra tinha acabado e que aquilo pelo que estávamos lutando há tanto tempo e tão arduamente tinha finalmente acontecido”, escreveu em seu diário.
Inicialmente, ele “não falava muito” sobre suas experiências na Segunda Guerra Mundial, pensando que seria melhor, mas “isto é um erro”, afirma.
“Quando alguém diz, ‘Eu não quero falar disso’, precisa falar disso”, reconhece.
“Eu quero que sejam conscientes de que ser um pacificador é o caminho a seguir”, afirma.
(AFP)


