Presidente disse que está disposto a discutir o Orçamento com todos os segmentos, mas cobrou a contrapartida da desoneração, destacando compromisso com o trabalhador
A fala ocorreu um dia após o presidente reunir a equipe econômica no Palácio do Planalto para iniciar a discussão sobre a revisão de gastos do governo.
“A equipe econômica tem que me apresentar as necessidades de corte. Ontem quando eu vi a demonstração da [ministra do Planejamento, Simone Tebet], disse para ela que fiquei perplexo”, contou Lula. A gente discutindo corte de R$ 10 bilhões, R$ 15 bilhões aqui e de repente você descobre que que tem R$ 546 bilhões de benefício fiscal para os ricos nesse país, como é que é possível?” questionou.
Ele repetiu que está disposto a discutir o Orçamento com todos os segmentos, mas cobrou a contrapartida da desoneração, destacando compromisso com o trabalhador. “Sobre falta de contrapartida em relação à desoneração: achamos que não é normal.”
Lula disse que aprendeu com a sua mãe a não gastar mais do que tem. “Eu aprendi com uma mulher analfabeta, Dona Lindu, a não gastar aquilo que não tenho. É por isso que estamos fazendo um estudo sério sobre Orçamento. País cresce acima do que o mercado imaginou, gerando emprego, salário crescendo. Situação é boa do ponto de vista econômico, melhor do que pegamos.”
Na última quarta-feira (12), o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), devolveu ao Executivo uma Medida Provisória que limita o crédito de PIS/Cofins para empresas após reação negativa entre parlamentares e empresários.
Essa foi a primeira vez no atual mandato de Lula que o Legislativo rejeitou uma medida provisória, o que é visto como um recado de que o Congresso não aceitará novas medidas de arrecadação que mexam nos tributos.
Também na entrevista à CBN, o petista não poupou o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto. Lula chegou a questionar se o comandante da instituição financeira tem posição política e está interessado em assumir cargo no governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo.
“Só temos uma coisa desajustada neste país, que é o comportamento do Banco Central. Essa é uma coisa desajustada. Presidente que tem lado político, que trabalha para prejudicar o país. Não tem explicação a taxa de juros estar como está”, afirmou Lula.
“Eu me reuni com presidentes de bancos do mundo todo e eles nunca estiveram tão otimistas no Brasil. Nos tornamos o 2º maior destino de investimentos no mundo. Nosso país não necessita dessa taxa de juros tão proibitiva de investimento no setor produtivo. É preciso baixar a taxa de juros compatível com a inflação”, completou.
Perguntado se Tarcísio tem influência no BC, Lula não titubeou: “[Tarcísio] Tem mais [poder de influência] que eu. Não é que ele [Campos Neto] encontrou com Tarcísio numa festa. A festa foi para ele, foi homenagem do governo de São Paulo para ele, certamente porque o governador de São Paulo está achando maravilhoso a taxa de juros de 10,5%.”
Campos Neto foi homenageado em jantar oferecido por Tarcísio de Freitas, na noite de segunda-feira (10), no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Na ocasião, segundo o jornal Folha de S.Paulo, o presidente do BC disse que aceitaria ser ministro da Fazenda em um eventual governo de Freitas.
Lula compara Campos Neto a Sergio Moro
Lula comparou Campos Neto ao ex-juiz e hoje senador Sergio Moro (União-PR), que foi o responsável por condená-lo na Lava-Jato. Ele assumiu o Ministério da Justiça no governo de Jair Bolsonaro, que viu Lula ser retirado da corrida eleitoral de 2018 devido às ações de Moro.
“Então, quando ele se [Campos Neto] auto lança para um cargo, eu fico imaginando, a gente vai repetir um Moro? O presidente do BC está disposto a fazer o mesmo papel que o Moro fez? Um paladino da Justiça, com rabo preso a compromissos políticos? Então o presidente do BC precisa ser uma figura séria, responsável e ele tem que ser imune aos nervosismos momentâneos do mercado”, questionou Lula.
“Então, veja, eu trato com muita seriedade, muita seriedade, vou escolher um presidente do BC que seja uma pessoa que tenha compromisso com o desenvolvimento desse país, controle da inflação, mas que também tenha na cabeça que a gente não tem que pensar só no controle da inflação. Nós temos que pensar em uma meta de crescimento, porque é o crescimento econômico, da massa salarial, que vai permitir a gente controlar a inflação”, ponderou Lula.
PT diz que BC é ‘bolsonarista’
Nesta terça-feira, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado analisará uma proposta que transforma o Banco Central em uma empresa pública.
Na mensagem, o partido argumenta que está sendo fabricada uma “inexistente crise fiscal” no país por “setores econômicos privilegiados, pela imprensa e por analistas de mercado”. A nota também reitera críticas à manutenção das taxas de juros no atual patamar pelo Banco Central, classificando-o como “bolsonarista”.
O comunicado do PT foi divulgado após setores do mercado financeiro e empresariais aumentarem a pressão para que o governo realize cortes nos gastos.


