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Após prisão de Silvinei, Torres diz que nunca sugeriu blitze no dia da votação

Um dia após a prisão de Silvinei Vasques, ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF), o ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal e ex-ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, Anderson Torres, disse nesta quinta-feira (10) à “CPI dos Atos Antidemocráticos” da Câmara Legislativa do DF (CLDF) que nunca sugeriu ao subordinado para fazer blitze no dia da votação do segundo turno das eleições de 2022. 

“Nunca sugeri ao diretor da PRF que interferisse no processo eleitoral”, afirmou Torres no discurso de apresentação, antes do início das perguntas dos deputados distritais que integram a CPI. Ele estava à frente do Ministério da Justiça na ocasião e, portanto, Vasques era seu subordinado.

“Fui questionado sobre uma suposta operação da Polícia Rodoviária Federal cujo objetivo seria cercear o direito ou atrapalhar o exercício do voto, especialmente no Nordeste. Gostaria de esclarecer que não houve interferência do Ministério da Justiça no planejamento operacional da PRF e que a informação recebida do diretor geral era a de que o planejamento do segundo turno tinha sido semelhante ao do primeiro turno e foi executado sem alterações”, garantiu o ex-ministro.

Torres foi questionado pelo deputado Chico Vigilante (PT), presidente da CPI dos Atos Antidemocráticos, sobre os bloqueios feitos nas estradas no dia da votação, apesar da proibição do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As blitze se concentram na região Nordeste, reduto eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que acabou derrotando Jair Bolsonaro (PL) nas urnas. O ex-ministro da Justiça disse que mandou “liberar” as rodovias. 

Agentes da PF recuperaram um mapa que mostra os locais onde havia concentração de votos em Lula no primeiro turno. O documento estava no celular da delegada Marília de Alencar, então diretora de Inteligência do Ministério da Justiça, e, segundo a apuração, foi apresentado a Torres em uma reunião no dia 17 de outubro, 13 dias antes do segundo turno.

“Havia uma reunião agendada com o ministro para as 11h. Sendo assim, como esta imagem foi capturada às 11h23min, há fortes indícios de que esta fotografia tenha sido realizada para esta reunião”, explica a PF na representação.

Dois dias depois, em 19 de outubro, a PF cita dois novos encontros em que a orientação de reforçar os bloqueios em estradas em áreas lulistas teria sido passada: uma reunião do Conselho Superior da PRF, com a presença de 47 policiais, e um encontro no gabinete de Torres. Sobre o encontro do colegiado, a PF extraiu posteriormente mensagens de WhatsApp que corroboram a existência de uma diretriz para favorecer Bolsonaro.

Um servidor da área de inteligência da PRF disse a um colega que a determinação de Vasques era clara: “Foram as reuniões de gestão. Disse muita m… Policiamento direcionado”. Seu subordinado então questionou: “DG (o diretor-geral)?”. Ele confirmou: “Positivo.” Segundo a PF, a conversa fazia referência ao encontro de dez dias antes.

Já a reunião no gabinete é a principal frente da PF para expandir a investigação, de acordo com a colunista Malu Gaspar, do Globo. Investigadores tratam o encontro, que teve a participação de Torres, Vasques, além de outros representantes da PRF, Ministério da Justiça e PF, como uma possível evidência de que a atuação no segundo turno foi uma determinação do governo Bolsonaro, não uma decisão isolada da chefia da PRF.

Torres faltou à primeira convocação para depor na CPI dos Atos Antidemocráticos 

Anderson Torres, que foi interrogado na CPMI do 8 de janeiro na última terça-feira (8), foi convidado pelos deputados distritais que integram CPI dos Atos Antidemocráticos da Câmara Legislativa do DF para depor em março, mas não apareceu.

Torres é investigado pela Polícia Federal por suspeita de omissão e conivência com os ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília. À época, ele era o responsável pela segurança na capital federal, mas estava fora do país.

Anderson Torres, que havia deixado o Ministério da Justiça de Bolsonaro no fim do governo, viajou de férias com a família para os Estados Unidos em 6 de janeiro, menos de uma semana após assumir a Secretaria de Segurança Pública do DF.

Àquela altura já havia alertas nas redes sociais sobre convocação de bolsonaristas para “tomada do poder” em Brasília. O esquema de segurança na Esplanada, que fica a cargo das forças de segurança do DF, foi alterado.

O governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), alega que só soube que Anderson Torres estava fora do país após o início dos ataques aos prédios públicos e ao tentar falar com seu secretário de Segurança Pública, que não atendeu o celular.

Aliado de Bolsonaro, Ibaneis exonerou Torres ainda no fim da tarde de 8 de janeiro, mas o próprio governador acabou afastado da função, no dia seguinte, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), sob suspeita de omissão. Ele foi autorizado a voltar ao cargo meses depois. 

Já Torres foi preso em 14 de janeiro e solto em 11 de maio, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Atualmente, o ex-secretário cumpre medidas cautelares, que incluem uso de tornozeleira eletrônica.

Torres se entregou à PF ao desembarcar sozinho no Brasil, em voo vindo de Orlando, na Flórida. Bolsonaro e seu ajudante de ordens, tenente-coronel Mauro Cid, também investigados pelos atos de 8 de janeiro, estavam na Flórida no mesmo período – Bolsonaro deixou o Brasil em 30 de dezembro, dois dias antes da posse de Lula.

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